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Eu sou brilhante, genial e muito humilde
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O insuportável desabafo autobiográfico
É insuportável falar do cotidiano. Sobre a vida. Sobre os
pensamentos que tivemos enquanto
cozinhávamos/trabalhávamos/cagávamos e que achamos, do alto da
nossa mediocridade com recheio de arrogância, que foram inéditos,
verdadeiros insights publicáveis. Nunca são.
Mas, de vez em quando, na vida de quem merece, o cotidiano fica extraordinário. E nesses dias só dá vontade de escrever sobre o quão lindo tudo é.
Se eu soubesse escrever, do meu cotidiano sairia um clássico. Me contento com meus gozos.
Mas, de vez em quando, na vida de quem merece, o cotidiano fica extraordinário. E nesses dias só dá vontade de escrever sobre o quão lindo tudo é.
Se eu soubesse escrever, do meu cotidiano sairia um clássico. Me contento com meus gozos.
Auto-piedade #1
É tarde pra um patético pedido de socorro, mas ela já perdeu a
dignidade. Ficou em algum texto perdido, desses que foram parar no
fundo da gaveta ou em uma caixa de e-mail, sem resposta. De
escritora, só ficou o cigarro, esse cigarro fedido que não dá mais
prazer e nem alivia a angústia, só impesteia o quarto mal decorado,
cheio de pilhas de roupas, livros pelo chão, um amontoado de
calcinhas usadas atrás da porta. Ela nem se importa mais em admitir
que cheirou essas calcinhas pela manhã, buscando a menos nojenta
pra ser usada de novo.
Ela é tão ridícula que escreve sobre si mesma em terceira pessoa, em um delírio de falta de estilo. Falta estilo, falta dignidade e ela começa a desconfiar que faltam histórias pra serem contadas. A ficção que ela inventa todos os dias não basta mais. Os amores que ela inventa todos os dias não bastam mais. E ninguém mais aguenta ouvir falar da crise do escritor que não escreve.
Ela é a escritora que não escreve e que usa sua falta de talento, perversamente, na busca por paus e bucetas pra chupar e ficcionalizar. Ela só funciona sugando o talento alheio. Gota a gota, uma a uma, uma, duas, dez, cem mil palavras e, quem sabe, surja um milagre.
Ela é tão ridícula que escreve sobre si mesma em terceira pessoa, em um delírio de falta de estilo. Falta estilo, falta dignidade e ela começa a desconfiar que faltam histórias pra serem contadas. A ficção que ela inventa todos os dias não basta mais. Os amores que ela inventa todos os dias não bastam mais. E ninguém mais aguenta ouvir falar da crise do escritor que não escreve.
Ela é a escritora que não escreve e que usa sua falta de talento, perversamente, na busca por paus e bucetas pra chupar e ficcionalizar. Ela só funciona sugando o talento alheio. Gota a gota, uma a uma, uma, duas, dez, cem mil palavras e, quem sabe, surja um milagre.
Sex toys are for freaks.
Hoje eu fui pro trabalho. (Sim, eu trabalho. Essa é a coisa que eu
faço que menos se encaixa com a minha personalidade. Sempre achei
que alguém devia perceber que eu não mereço essa rotina proletária
e devia me pagar uma mesada gorda pra eu me dedicar a prazeres da
carne e do espírito. Sigo esperando.)
Eu dizia: hoje eu fui pro trabalho. Eu trabalho com pessoas. Um emprego bem plain, no qual eu não fico um segundo sozinha. Interação 100% do tempo no ambiente menos sexual do mundo. (E eu nem queria que fosse diferente, isso não é uma reclamação. Pedofilia é um dos 3 fetiches que não tenho.)
Fui, vestida com minha calça social e camisa impecavelmente limpa e bem passada, cabelos penteados, hálito de hortelã e minha melhor cara de não-tenho-buceta. Olhando pra baixo, via um sapato meio usado demais, esses detalhes patéticos que entregam a condição classe média compro-sapato-ou-pago-o-aluguel. A pasta, super profissional, é a segunda evidência. Material pobre, brilhante demais, imitando couro. Mas hoje, estranhamente, a pasta tinha cheiro de couro.
Tinha cheiro de couro e tinha alguns segredos guardados. Alguns não. Dois. Ali, bem no fundo, exatamente dois segredos anunciavam os planos daquela professorinha pro fim do dia. Por algumas vezes, nos momentos mais insuportáveis da tarde, abri a pasta, como quem busca o papel mais importante, e olhei pra eles, no tesão da antecipação. Imaginei se os segredos pareceriam assim ridículos quando eu os tirasse da pasta e os entregasse nas mãos de quem daria a eles o fim devido.
No momento em que os planos se frustraram e os segredos deixaram de ter razão para estarem ali, eles me pareceram inúteis como um pau mole. E eu me senti patética como um fetichista que, por não conseguir uma ereção com alguém de verdade, fica em casa acariciando peças de roupa de látex.
E me ocorreu que sex toys are for freaks.
Eu dizia: hoje eu fui pro trabalho. Eu trabalho com pessoas. Um emprego bem plain, no qual eu não fico um segundo sozinha. Interação 100% do tempo no ambiente menos sexual do mundo. (E eu nem queria que fosse diferente, isso não é uma reclamação. Pedofilia é um dos 3 fetiches que não tenho.)
Fui, vestida com minha calça social e camisa impecavelmente limpa e bem passada, cabelos penteados, hálito de hortelã e minha melhor cara de não-tenho-buceta. Olhando pra baixo, via um sapato meio usado demais, esses detalhes patéticos que entregam a condição classe média compro-sapato-ou-pago-o-aluguel. A pasta, super profissional, é a segunda evidência. Material pobre, brilhante demais, imitando couro. Mas hoje, estranhamente, a pasta tinha cheiro de couro.
Tinha cheiro de couro e tinha alguns segredos guardados. Alguns não. Dois. Ali, bem no fundo, exatamente dois segredos anunciavam os planos daquela professorinha pro fim do dia. Por algumas vezes, nos momentos mais insuportáveis da tarde, abri a pasta, como quem busca o papel mais importante, e olhei pra eles, no tesão da antecipação. Imaginei se os segredos pareceriam assim ridículos quando eu os tirasse da pasta e os entregasse nas mãos de quem daria a eles o fim devido.
No momento em que os planos se frustraram e os segredos deixaram de ter razão para estarem ali, eles me pareceram inúteis como um pau mole. E eu me senti patética como um fetichista que, por não conseguir uma ereção com alguém de verdade, fica em casa acariciando peças de roupa de látex.
E me ocorreu que sex toys are for freaks.
Esboço n° 27
Acordei no meio da noite e ela estava dormindo, com uma cara meio
torta enfiada no travesseiro. Da boca aberta saía um fio de baba e
se ouvia um barulho quase imperceptível de respiração. O corpo
gordo, esparramado, parecia branco demais no meio daqueles lençóis
com cheiro de alvejante.
Levantei pra mijar, fazendo um pouco de barulho pra ver se ela acordava. Continuava inerte, a puta. Deitei ao lado dela e passei um dedo gelado por aquelas costas largas, suavezinho. Nem se mexeu, desgraçada. Acariciei um dos braços, que estava largado na parte da cama que teoricamente era minha. Cheirei a pele, cheiro forte de sexo e banho vencido. Lambi e encaixei meus dentes em um pedaço daquela carne e apertei, com muita força.
- Tá louca, sua filha da puta? -, gritou.
Era amor.
Levantei pra mijar, fazendo um pouco de barulho pra ver se ela acordava. Continuava inerte, a puta. Deitei ao lado dela e passei um dedo gelado por aquelas costas largas, suavezinho. Nem se mexeu, desgraçada. Acariciei um dos braços, que estava largado na parte da cama que teoricamente era minha. Cheirei a pele, cheiro forte de sexo e banho vencido. Lambi e encaixei meus dentes em um pedaço daquela carne e apertei, com muita força.
- Tá louca, sua filha da puta? -, gritou.
Era amor.
O Post Anônimo
Quando dá a vontade de escrever o que já foi escrito, nada melhor
do que um post anônimo, que ninguém vai ler e que ninguém vai
comentar. Escrever no diário não satisfaz, tem que ter o público
imaginário, o leitor que está aqui, na minha frente, com essa cara
meio tonta de quem espera o texto que já vai ser entregue. Gostou?,
gostei, que bom, agora vem cá e me come.
Esse leitor, esse de hoje, não é imaginário. Tem cara, cor, cheiro e gosto. Essa cara feliz, esse meio sorriso, essa coisa calma, morna, morna, morna, quente, quente, quente, Quente. Tem esse cheiro, o cheiro cor-da-pele. Tem o salgado, gosto de porra, tão doce. Esse leitor não merece ler coisas que já foram escritas e muito menos coisas que não merecem terem sido escritas.
Felizmente, esse leitor não vai ler O Post Anônimo e a autora pode ficar tranquila. Ele não vai ler. Pode se entregar a essa calma desesperada do saber que ele não vai ler, pode chupar outro pau imaginando que é o dele (mas e o gosto? e o cheiro da cor?). Pode até fantasiar que ele leu.
Mas, que sorte, ele não vai ler.
Esse leitor, esse de hoje, não é imaginário. Tem cara, cor, cheiro e gosto. Essa cara feliz, esse meio sorriso, essa coisa calma, morna, morna, morna, quente, quente, quente, Quente. Tem esse cheiro, o cheiro cor-da-pele. Tem o salgado, gosto de porra, tão doce. Esse leitor não merece ler coisas que já foram escritas e muito menos coisas que não merecem terem sido escritas.
Felizmente, esse leitor não vai ler O Post Anônimo e a autora pode ficar tranquila. Ele não vai ler. Pode se entregar a essa calma desesperada do saber que ele não vai ler, pode chupar outro pau imaginando que é o dele (mas e o gosto? e o cheiro da cor?). Pode até fantasiar que ele leu.
Mas, que sorte, ele não vai ler.